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Evoluções na defesa do meio ambiente

Entrevista: Coordenadora do projeto Kigali do Instituto Clima e Sociedade, Kamyla Borges

05.03.2020  |  59 visualizações

A sustentabilidade é um tema cada vez mais presente em nossas vidas e o segmento de HVAC&R é destaque nesse quesito. Há muitos anos, novas tecnologias e procedimentos são dedicados a oferecer conforto e bem estar ao ser humano, porém com respeito pleno ao meio ambiente.

A Revista ASBRAV conversou com a coordenadora do projeto Kigali do Instituto Clima e Sociedade, Kamyla Borges. O Projeto nasceu como uma iniciativa que visa a contribuir para a mudança do perfil de consumo energético do setor de ar condicionado no Brasil, aproximando-o das melhores práticas internacionais de forma integrada à transição segura para gases refrigerantes de baixo GWP.

Revista ASBRAV - Como avalia a evolução dos equipamentos de climatização no aspecto sustentabilidade. Quais avanços mais importantes?

Kamyla Borges - A indústria tem evoluído na direção de produtos mais eficientes e sustentáveis, seja por uma questão de competitividade, seja em resposta às políticas e medidas governamentais voltadas à eficiência energética e ao meio ambiente. Nos últimos anos, podemos citar duas tendências em inovação e aprimoramento tecnológico bastante positivas na perspectiva da sustentabilidade. A primeira é a fabricação dos condicionadores de ar de rotação variável, os chamados inverter, que resultam em economias de energia significativas, gerando impactos positivos para o consumidor (que reduz a conta de luz), para o sistema elétrico (alivia os picos de carga) e para o clima (reduz a demanda por geração elétrica fóssil). A outra é a transição dos fluidos refrigerantes de alto potencial de aquecimento global (GWP) para opções de menor GWP. Esta transição tem sido motivada pela Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, aprovada em 2016, e que estabelece um cronograma de redução dos Hidrofluorcarbonetos, HFCs.

Revista ASBRAV - Durante a última década houve um momento de aquecimento na economia que motivou uma aquisição em massa de equipamentos de climatização. De lá para cá, veio a recessão e a natural parada de investimentos na modernização de equipamentos. Que efeitos isso pode trazer e que medidas seriam importantes a serem adotadas do ponto de vista econômico e político uma vez que equipamentos mais modernos consomem menos energia elétrica?

Kamyla Borges - A falta de investimentos em equipamentos mais eficientes tem provocado importantes impactos negativos. Estudo realizado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), órgão técnico de assessoramento do Ministério de Minas e Energia, aponta que o ar condicionado é um dos principais fatores a contribuir para os picos de demanda, o que ajuda a tornar os custos do sistema elétrico mais altos (como o acionamento das usinas mais caras, a demanda por novos investimentos em infraestrutura de geração, transmissão, etc.). E ter energia mais cara não é bom para ninguém.

Um estudo realizado pelo Lawrence Berkeley National Laboratory (LBNL), braço técnico do Departamento de Energia norte-americano, em parceria com o iCS, estimou que um aumento da eficiência média do mercado brasileiro de splits dos atuais 3,6 W/W (CSPF) para 5,0 W/W (CSPF) poderia evitar a necessidade de cerca de 7,7 GW em 2035, o que daria cerca de 7 grandes usinas térmicas.

Equipamentos menos eficientes também não são bons na perspectiva da competitividade. Ainda que possam ser mais baratos (que não necessariamente é verdade), os custos de operação e manutenção não compensam. E o consumidor sabe disso. No mesmo estudo feito com o LBNL, estimamos que ao trocar um equipamento ineficiente por outro mais moderno (com cerca de 5,0 W/W em CSPF), o consumidor consegue comprar outro ar condicionado ao final da vida útil apenas com a economia na conta de luz.

O mercado brasileiro é dominado por empresas globais, que já comercializam equipamentos de alta eficiência e com fluidos de baixo GWP em outros países. E por que essa ainda não é uma realidade no país? Porque os sinais econômicos e regulatórios ainda não são suficientes. Mas isso está mudando.

O primeiro sinal de mudança vem dos sinais regulatórios. Este ano, o INMETRO submeteu à consulta pública uma proposta de alteração da metodologia de definição do desempenho energético dos condicionadores de ar split e também de reclassificação das faixas do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE). Esta proposta foi amplamente discutida com a indústria e demais setores da sociedade e, uma vez formalizada, melhorará bastante a informação que o consumidor recebe sobre a eficiência energética dos equipamentos, estimulando a compra daqueles mais econômicos. Isso porque adota a métrica sazonal, que capta melhor os ganhos de eficiência da tecnologia inverter e também porque passa a exigir níveis de eficiência mais altos para enquadramento na classe “A” da etiquetagem.

De forma alinhada com o INMETRO, o Ministério de Minas e Energia (MME) também começou a avaliar, junto com o Comitê Gestor de Índices de Eficiência Energética (CGIEE), a revisão dos padrões mínimos de eficiência energética para condicionadores de ar. A ideia é termos níveis mínimos mais exigentes em 2025, dando tempo suficiente para a indústria se adaptar.

Outro sinal de que o mercado brasileiro terá de se adaptar vem do Congresso Nacional. A Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal está em processo de ratificação no Congresso, já tendo sido aprovada nas Comissões de Relações Exteriores e Defesa, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e Cidadania, Constituição e Justiça da Câmara de Deputados. Espera-se que, até o final do ano, já esteja em vigor no Brasil, o que implicará a adoção progressiva de fluidos refrigerantes de baixo GWP.

Além disso, ainda que de forma tímida, a economia em geral dá sinais de recuperação, as vendas de condicionadores de ar voltam a crescer de forma mais acelerada. Os fabricantes de condicionadores de ar instalados no Brasil produziram 3,53 milhões de splits residenciais no ano passado, uma expansão de 21% sobre 2018, segundo dados divulgados pelo departamento de economia da AssociaçãoBrasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava). O setor deve produzir 4,06 milhões de splits domésticos em 2020, um aumento de 15% em relação a 20191.Vale lembrar que o mercado brasileiro oferece um grande potencial de expansão. Segundo dados da recente pesquisa de posse e hábito realizada pelo PROCEL/Eletrobras, apenas 22,5% da população possui ao menos um equipamento.

Revista ASBRAV - A emissão de gases nocivos ao meio ambiente ainda é um tema muito preocupante? Que novidades existem nesse sentido?

Kamyla Borges - A dificuldade de redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE) no mundo já têm levado a uma situação de emergência climática. Esse é o recado que as instituições de pesquisa mais renomadas do mundo têm insistido em dar faz tempo. Posso citar como exemplo estudo do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP recém divulgado que comprovou que a região metropolitana de São Paulo já sofre com eventos climáticos extremos intensificados pela mudança do clima, ao verificar que o número de eventos de precipitação extrema, com chuva acima de 100 milímetros/dia, já é maior nos últimos 20 anos do que no acumulado das seis décadas anteriores. E quando falamos dos impactos das mudanças climáticas, estamos mirando sobretudo os impactos sociais e econômicos.

E o que o setor de climatização tem a ver com a mudança do clima? Em primeiro lugar, a tendência de aumento das temperaturas, principalmente nos verões, coloca os sistemas de climatização como uma medida de adaptação e como uma necessidade para manutenção da saúde e do bem-estar. Em segundo lugar, num país como o Brasil, em que as reduções de emissões de gases de efeito estufa se tornam mais complicadas em setores como uso da terra, florestas e agropecuária, o setor de ar condicionado é um dos poucos que pode oferecer reduções concretas de emissões, já no curto prazo e com benefícios reais para a sociedade (economia de dinheiro para o consumidor) e para o sistema elétrico (redução dos custos sistêmicos).

Kamyla Borges é coordenadora do portfólio de Eficiência Energética do iCS e do Projeto Kigali. Formada em direito pela USP, tem mestrado e doutorado em planejamento de sistemas energéticos pela Faculdade de Engenharia Mecânica da UNICAMP.

Sobre o iCS: O Instituto Clima e Sociedade (iCS) é uma organização filantrópica que promove prosperidade, justiça e desenvolvimento de baixo carbono no Brasil. Funcionamos como uma ponte entre financiadores internacionais e nacionais e parceiros locais. Assim, somos parte de uma ampla rede de organizações filantrópicas dedicadas à construção de soluções para a crise climática. O iCS traça planos de ação frente aos problemas climáticos a partir de uma lente social. Por isso, prioriza medidas que, além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE), também gerem melhorias na qualidade de vida para a sociedade, em especial para os mais vulneráveis.

Redação: Marcelo Matusiak

Coordenação: Marcelo Matusiak

  • Coordenadora do projeto Kigali do Instituto Clima e Sociedade, Kamyla Borges
    (Divulgação)

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