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Um olho no vírus, outro no limite

Artigo: J.J Camargo

02.04.2020  |  34 visualizações

As maiores crises têm muitas caras. E quanto mais os dias passam, mais se percebe que estamos diante de um labirinto capaz de confundir o Minotauro. As verdades se modificam com uma velocidade capaz de desmoralizar os monoteístas que colocam ideologia em todas as suas propostas, sem preocupação com o que os isentos podem pensar deles. No momento dramático de suposições infundadas e de propostas escusas, a incerteza é tanta que alguém postou: “Se você não está confuso, é porque está mal informado!”

As diferentes nações são marcadas por suas semelhanças e diferenças, o que torna temerária a transferência de estratégias de sobrevivência de países desenvolvidos, para o mais pobre dos 4 brasis que compõem esta Nação de dimensões continentais. Um país em que a população de trabalhadores informais equivale a quase ¾ dos habitantes do Reino Unido não sobreviverá às mesmas regras. Afinal, os 44 milhões de trabalhadores na informalidade não podem esperar o vírus ir embora para voltar a comer. A fome não se resolve com palavras encorajadoras de que haveremos de vencer e sairemos mais fortes dessa crise. Não há esperança que sobreviva ao jejum.

A possibilidade real de auxílio governamental aos mais pobres é outra diferença abismal. A disponibilidade de 2 trilhões de US$ (10 trilhões de reais para facilitar a conta) do governo americano, comparado à nossa oferta parcelada de 40 bilhões de reais, escandaliza a diferença entre os dois mundos.

Numa crise como esta fica evidente a enorme dificuldade de diálogo dos governantes e os diferentes estratos sociais. Quando as cabeças pensantes anunciam a importância do lockdown, para alcançar o flattening of the curve, ou pedidos para o supermercado only on delivery, estão falando com quem? Certamente não com os milhões de excluídos, porque esses vivem uma realidade inalcançável. E aqui reside o maior dilema: como encontrar o equilíbrio, que permita evitar o flagelo do vírus sem acelerar as mortes por causas velhas e conhecidas? Quem focar o problema de um ângulo isolado terá ótimas propostas para a sua área, mas sem nenhuma noção da contracapa da tragédia.

A recomendação de confinamento, horizontal ou vertical, separando os idosos como população de reconhecido maior risco, que tem funcionado nos países europeus, não faz a menor diferença na população pobre, porque a miséria reconhecidamente amontoa as suas vítimas, que vivem em casebres que abrigam seis ou oito pessoas numa mesma peça, e que vai aproximá-los ainda mais com a chegada do inverno, porque há muito eles descobriram que o melhor cobertor disponível é o calor do outro.

Se somarmos os 12 milhões, dos previamente desempregados, com os trabalhadores informais, esses seres que são invisíveis porque, segundo o ministro Guedes, apenas 20% deles tem registro no Cadastro Único da União, e vão precisar se cadastrar para terem acesso à esmola dos R$ 600,00. O ministro também afirmou que o dinheiro está disponível. Resta agora torcer que esta pobre gente resista ao poder macabro da burocracia. Se não, esta população, que equivale à da Espanha e Portugal juntos, de brasileirinhos pobres, será excluída das estatísticas de morte pela COVID-19, porque a fome é um despachante menos burocrático.

Se as pessoas com menos de 40 anos, que representam 70% da população, e que em qualquer virose têm morbidade baixíssima, não recolocarem o país a funcionar, é recomendável que não apenas fiquemos em casa, mas que reforcemos as fechaduras, porque o caos social será inevitável. Então, Sr. Governador, tenha cuidado com o quanto a corda da pobreza já está esticada. Não se pode exigir racionalidade de um pai que não conseguiu dormir porque as crianças não pararam de chorar. E que ninguém subestime a agressividade de um homem exigido no seu instinto mais primitivo: o da sobrevivência de suas crias.

J.J Camargo

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