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Automedicação e facilidade na compra de medicamentos sem receita médica: uma preocupante realidade

Artigo de Opinião: AMRIGS

06.05.2021  |  397 visualizações

O dia 5 de maio é lembrado por ser o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamento.  A data foi criada para alertar a população quanto aos riscos à saúde causados pelo uso indiscriminado de medicamentos e pela automedicação, prática tão corriqueira entre os brasileiros.
A Associação Médica do Rio Grande do Sul aproveita o ensejo da data para publicar, na íntegra, o artigo elaborado pelo associado Guido Bernardo Aranha Rosito que aborda justamente o tema “automedicação”.

A Presidência da AMRIGS, juntamente com sua Diretoria de Exercício Profissional, parabeniza o colega pela lucidez de seu texto e enaltece o conteúdo tão importante para a promoção da saúde de nossa população. Reafirma, também, seu propósito institucional de fomento à ciência médica, apoiando as melhores e mais seguras práticas médicas.

Porto Alegre, 05 de maio de 2021.

Gerson Junqueira Jr.
Presidente da AMRIGS

Ricardo Moreira Martins
Diretor de Exercício Profissional da AMRIGS


A automedicação e a facilidade para a compra de medicamentos sem receita médica são uma preocupante realidade em nosso país.


Em países desenvolvidos da América do Norte e Europa, ao contrário, a maioria dos fármacos são necessária e obrigatoriamente vendidos com receita médica. Poucos são os medicamentos de acesso direto, acessíveis à compra sem receita. Ainda, para aumentar a segurança do processo de aquisição de medicamentos, todas as receitas médicas são aviadas pelo farmacêutico responsável. Se este percebe qualquer irregularidade ou discrepância, prontamente entra em contato com o médico prescritor, uma vez que é corresponsável por esta prescrição.

Nós, médicos, somos os profissionais mais bem preparados para medicar nossos pacientes. Treinados em escutar, examinar e, conjuntamente com exames complementares, realizar diagnósticos e propor tratamentos, farmacológicos ou não. Nosso preparo é decorrente de 6 longos anos de graduação, envolvendo disciplinas como semiologia, clinica médica, farmacologia clínica, epidemiologia clínica, patologia clínica, radiologia entre outras. Seguem-se à graduação, geralmente, entre 2 a 6 anos de residência médica, onde aprimoramos e colocamos em prática estes conhecimentos. Muitos, também, fazem mestrado, doutorado e pós-doutorado, especializando-se ainda mais. O tempo total de aprendizado e treinamento é muito longo, até que efetivamente estejamos prontos para oferecer atendimento pleno e de qualidade aos pacientes.

Entendemos as dificuldades de acesso adequado à saúde em nosso país. E esta desassistência resulta em um cenário arriscado de busca de soluções rápidas e aparentemente mais baratas por parte dos pacientes, mas que podem ter um preço muito elevado.

O resultado da automedicação sempre é perigoso. Grande quantidade de intoxicações medicamentosas e diversos eventos adversos associados ao uso incorreto de fármacos podem ocorrer. Infelizmente, em nosso país, o paciente se dirige às inúmeras farmácias que se multiplicam em cada esquina e busca resolução de seus sintomas com o balconista. O farmacêutico, que seria fundamental para aferir a receita médica e averiguar interações e outras peculiaridades da prescrição para prevenir problemas, nem sempre está disponível.

A automedicação e a falsa sensação de cura têm um efeito colateral grave: muitas doenças deixam de ser adequadamente diagnosticadas, toxicidade e efeitos adversos desnecessárias se acumulam e o sistema de saúde funciona inadequadamente. O trabalho dos médicos e dos outros profissionais sempre deve ser complementar, visando a promoção da saúde e maior segurança da população.

Para se obter os melhores resultados, a prescrição médica deve ser baseada na melhor evidência disponível, na experiência do médico e na preferência individual de cada paciente. Infelizmente, durante a pandemia, a automedicação se tornou uma prática ainda mais corriqueira e inapropriada, com todos os perigos inerentes já mencionados. Devemos estimular a união de todos profissionais de saúde, para que cada um, dentro do seu espectro de atuação, possa trabalhar em prol da saúde de nossa população. O paciente não pode, e não deve correr ainda mais riscos, seduzido pelo conforto de atalhos perigosos.

1. ARRAIS, Paulo Sérgio Dourado. Prevalence of self-medication in Brazil and associated factors. Rev. Saúde Pública, São Paulo, v. 50, supl. 2, 13s, 2016.
2. Stein, Ricardo, Alboim, Caroline, Campos, Candice, Mello, Renato Bandeira de, Rosito, Guido Aranha, Polanczyk, Carisi Anne. (2004). Variabilidade entre cardiologistas na abordagem aos pacientes em prevenção secundária da cardiopatia isquêmica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 83(3), 219-222.

Dr. Guido Bernardo Aranha Rosito - graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 1984. É especialista em Terapia Intensiva e Cardiologia. Possui mestrado em Farmacologia pela Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA); doutorado em Cardiologia pela UFRGS; título de PhD através do IPCD/Deaconess Hospital/Harvard Med em Cardiologia; e de pós-doutorado em Imagem CV no Mass General Hospital/Harvard Med. Atualmente, é professor da UFCSPA e, de 2009 a 2019, foi professor da ULBRA.

 

  • Artigo Automedicação
    (NCM AMRIGS)

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